Analise Completa de: Batman Cavaleiro das Trevas de Frank Miller

“Uma morte boa. Mas não o bastante.”

Olá amigos de praxe, sei que devem estar estranhando essa frase impactante aí em cima, mas isso é apenas para dar ênfase a umas das obras mais maravilhosas da DC Comics, feito pela lenda dos quadrinhos, Frank Miller, criador de outras obras famosas como: “300” ou “Sin City”, nomes que chamam atenção daqueles que são fãs de quadrinhos assim como eu. Nessa resenha irei fazer uma análise completa da obra que resgatou o herói das sombras. Batman sempre foi um herói muito popular e amado entre o público, seja nos quadrinhos ou nos filmes e séries animadas, lembro-me de sua figura poderosa na animação “Liga da Justiça: Sem Limites” ou até mesmo nos filmes de minha infância estrelado por “Val Kilmer” ou até por “George Clooney”. Mas, não foi só de glórias que o Homem-Morcego viveu, ele mesmo já teve sua queda nos quadrinhos que poderiam acabar com sua carreira mais cedo e nessa premissa começo minha análise. Sem mais delongas, a frase a cima que citei é repetida por Bruce em momentos chave de O Cavaleiro das Trevas. Quase uma quebra de quarta parede, é como se o próprio Bruce Wayne de Miller estivesse ciente do que representa. A morte boa, não só inserida no contexto desta história específica, mas sim, de todo um legado. Em O Cavaleiro das Trevas, Miller e seu Bruce Wayne, seu Batman, procuram, mais que tudo, uma morte digna para justificar um legado de anos, com boas e más histórias. Parte do meu fascínio pelo Batman, e pelo Batman/Bruce Wayne de Frank Miller em si é pelo fato de Miller o retratar como ele é e deve ser: essencialmente, um maníaco. Para mim, na mitologia, este é o verdadeiro Batman. Ele é um homem de meia idade que veste uma fantasia de morcego para bater nos criminosos a noite, recruta adolescentes para servirem de soldados e tem atitudes que beiram ao transtorno de personalidade… tirando o fato de que é um fascista. Não há nada de ingênuo neste Batman. Intencional ou não (há muito de Miller como pessoa no Batman, o que será discutido mais a frente neste texto), Miller ajudou a compor a personalidade definitiva de um dos heróis mais fascinantes dos quadrinhos. O fascínio se confunde com nojo quando paramos para pensar que estamos falando do Batman, o herói que todos amam amar. O problema é que a maioria ama pelos motivos errados. Uns por gostarem da forma fascistona do mesmo, sem saber exatamente o porquê, e alguns, motivados pelo já chato meme do “I’m Batman”. Mas tudo bem. A verdade é que, apesar de tudo, o real único adjetivo que posso dar para o personagem é um sonoro “Badass”, o legítimo “fodão”.


A HQ em alguns pontos resume muito bem a parte do mito do homem-morcego: estamos falando de um homem que passou parte de sua vida, apanhando, mental e emocionalmente. E, enfim, decide socar de volta, decide revidar, alguém que teve que aprender a controlar seus medos, mas ao invés disso desenvolveu uma espécie de fuga. Batman nada mais é do que a ferramenta que Bruce usa para exorcizar seus demônios, com a ilusão de que isto, de certa forma vingará, ou melhor, justificará, não só a morte de seus pais, mas a sua loucura (ele se veste como um morcego humano, galerinha). Um fato que já escrevi aqui na resenha de “Batman vs Superman” é o Batman de Ben Affleck foi inspirado no de Frank Miller, nele temos quase um espelho do velho Wayne que é retratado em “O Cavaleiro das Trevas”, ainda na linha dos filmes temos o Batman de “Christopher Nolan” um dos responsáveis por mudar a visão de filmes de heróis, mas apesar de seu Batman fascinante e sombrio assim como já vimos em outras obras, ele foge em alguns pontos que realmente fazem o herói parecer um banana como se aposentar e ir para a Itália, por exemplo. Enquanto o Bruce Wayne de “Christopher Nolan” busca uma saída dessa vida, o Wayne de Miller desprezaria morrer ao lado de esposa e filhos. No final da trilogia de Nolan, apreciamos a jornada de Bruce pois o que ele procura e consegue acima de tudo no fim é uma vida normal. Porém, por mais que isso seja consistente com o Bruce da trilogia de Nolan, isso soa fora do personagem na mitologia estabelecida nas HQs. Essa possibilidade não existe para o Bruce de Miller. Se ele um dia parar ou cair, será em combate.

Revelar a sinopse seria algo injusto, tamanha a surpresa que a história causa aos desavisados. Basicamente, acompanhamos o velho Bruce Wayne de 55 anos cercado por decadência e arrependimento, que se aposentou a tempos. Mas após alguns acontecimentos, decide voltar, não só para impedir a crescente onda de crimes, medo e opressão de gangues nas ruas, mas também por que ele precisa. Porque ele se sente bem quebrando a cara de uns criminosos. Com a volta de Batman, temos a volta de um certo palhaço do crime (que o filme Batman Begins retratou perfeitamente ao sugerir que o surgimento de Batman encorajaria o surgimento de quaisquer outros loucos que quisessem sair pelas ruas fantasiados), alguns rostos familiares da mitologia do morcegão e o novo Robin, desta vez uma menina, (isso mesmo, uma “Fucking” menina de 13 anos que é também, possivelmente, o meu Robin preferido) Carrie é uma personagem forte, com traços de personalidade que a definem como alguém com força de vontade, uma certa teimosia e nos representa na história por saber quem o Batman foi e o respeitar, não só como um “mestre”. A relação entre Bruce e Carrie é bem trabalhada, a forma como o mesmo se torna uma figura paterna para a jovem é comovente, e o momento em que Bruce a “recruta”, que é motivado de um impulso inconsequente de nostalgia, é brilhante. Novamente, ao mesmo tempo em que apreciamos a relação dos dois, ainda é um senhor de 55 anos adotando uma garota de 13 e a treinando, chamando de soldado e ameaçando demiti-la. O que torna a psique de Bruce ainda mais fascinante.

Sobre a arte? Eu acredito ser um dos pontos altos da carreira de Miller. Não tanto pela qualidade em si, mas pela clara evolução que ela passava. Em Sin City (seu ápice como desenhista), por exemplo, o Marv das primeiras 20 páginas não é o mesmo das últimas 20, pois o traço do desenhista estava evoluindo conforme ele se acostumava com os personagens, estava tomando forma e estilo. E isso ocorre um pouco aqui. O Batman da “primeira aparição” deste quadrinho é mais magro e atlético do que a massa de músculos truculenta (pelo qual o Batman desta HQ é conhecido e iconizado) que toma espaço nos próximos capítulos. Porém, novamente, isto pode ter sido intencional ou não de Miller. Pode ser um simbolismo literal de como Bruce se sentia naquele momento: o de estar mais jovem, de se sentir invencível e 20 anos mais novo. O que é genial. Talvez esta seja a palavra que mais digo a me referir sobre esta obra e esse é um dos motivos que mais me deixa triste e decepcionado… pois falaremos um pouco do Miller escritor. Esta é, para mim, sua obra-prima neste aspecto. Nunca, narrativamente, se viu algo parecido para o personagem. Miller está no seu auge, com momentos belos como os que acompanhamos pelos pensamentos dos personagens ou as sátiras aos programas televisivos e sensacionalistas da época, que, na minha opinião predominam hoje e são quase como um presságio do Miller aos tempos atuais. Claro que há alguns momentos em que a sátira quase se extrapola, como aquele em que o Superman é visto como a imagem representante dos EUA, com uma camisa aberta e uma águia nas mãos, posando imponentemente. Se há alguma coisa que Miller tenha pesado um pouco a mão, é na relação de Bruce com o Homem de Aço. Se ideologicamente suas discussões são interessantes e verossímeis, quando a porradaria começa, percebe-se que ele é escrito não como um escoteiro (o que é interessante), mas sim, como um tremendo vendido ao governo dos Estado Unidos da América.

Algo que preciso destacar é o Coringa de Miller, este personagem já foi retratado de muitas formas nos quadrinhos. A versão de Miller não tenta desvendá-lo ou fazer reviravoltas e redefini-lo como personagem, mas sim faz sua própria versão dele. O Coringa aqui é louco, mas se parece muito mais contido, ou melhor, consciente. Ele é um psicopata de fato, mais violento esóbrio”, se é que é possível dizer isto. Vamos a esse momento específico. Recapitulando: Fazem 20 ANOS que Batman não via o Coringa. 20 anos. E quando o encontro de fato acontece, eles não perdem tempo e vão direto para a dança. Nunca foi vista antes uma briga tão voraz entre os dois personagens: Batrangues atirados no olho, pedaços de carne sendo removidos. Batman já sabe o que terá que fazer, como no momento em que ele “diz” que não tem intenção de fazer prisioneiros, insinuando a possível e inevitável morte do coringa (ou de ambos). Todo aquele lance feito ultimamente de clímax/catarse por muitos escritores, que revela a relação dependente de Batman e Coringa e os trata como a metade um do outro é ignorado por Miller aqui de forma genial. Não existe lados opostos que se “complementam” e precisam do outro aqui, Batman e Coringa são forças incontroláveis do sistema que devorarão um ao outro. Batman é a justiça e o Coringa, o Caos, e um nunca entenderá o outro. Para Miller, as coisas são bem mais simples. O Batman visto aqui odeia o Coringa. Odeia a ponto de cuspir no seu cadáver.


 Algo que Miller sabe fazer muito bem é aprofundar o personagem para dentro de si mesmo, fazendo o ele encarar a si mesmo no “espelho” e se lembrar o porquê de ele ser quem é. Não um homem, não um herói. Mesmo que esse “não herói” seja um vigilante fascista e comprometido com uma causa sem fim, ele se tornou o verdadeiro Batman. E aquele velho insistente em procurar uma boa morte no começo da história? No fim, ele consegue isso… e algo mais. Devo dizer que o formato da publicação não importa, nem o papel impresso. Apenas leia esta obra-prima chamada Batman – O Cavaleiro das Trevas, que é, sim, a melhor história do Batman que este que vos escreve já leu. Dificilmente você lerá uma história que represente tão bem a psique danificada do Homem-Morcego e uma que o mostre descendo o cacete no Superman. E não se esqueça destas palavras: 

O mundo só faz sentido quando você o obriga a fazer.
Batman – O Cavaleiro das Trevas foi publicado pela editora Panini aqui no Brasil no formato de edição definitiva, com capa dura e colorido por dentro, o preço varia entre 90,00 a 94, 00 R$. Pode ser encontrado em sebos e livrarias.

Obrigado e até a próxima.

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